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(O Gago e O Seu Objecto de Desejo [The Stutter and his Object of Desire]… with Paulo L from Lisbon)

Paulo L’s text arrived just after the deadline for the issue, and so couldn’t be included, but it is here for you now…

***

[ORIGINAL IN PORTUGESE; ENGLISH TRANSLATION FOLLOWS] 

Era início de uma noite de inverno friorenta e eu caminhava apressadamente para o Bairro Alto ( um bairro bem castiço da zona de Lisboa e o meu local favorito para sair à noite  ). Não, não ia exactamente para me divertir, mas sim encontrar-me com um amigo – O Meu Objecto de Desejo – um colega de licenciatura, uns cinco anos mais velho do que eu. Foi a minha primeira verdadeira paixoneta por um homem. Na altura eu tentava ser uma espécie de bissexual platónico que só se envolvia com raparigas (Confuso eu sei!). O Meu Objecto de Desejo era a síntese de tudo o que eu queria realmente ser ou honestamente, a síntese de tudo o que eu era, mas no momento não sabia … independente, idealista e altamente sedutor (na verdade ele era um excelente manipulador). E para reforçar ainda mais esta “obsessão” ele morava no Bairro alto! Para um teenager de dezanove anos suburbano ter um amigo que morava num bairro super cool   era  motivo de orgulho (pura inocência ou mera estupidez?).

Há alguns dias atrás, ele tinha-me feito uma proposta algo inusitada que imediatamente recusei sem pensar duas vezes. A ideia era muito simples, teria que ler algo para uma câmara de filmar, e o objectivo seria captar essencialmente eu a gaguejar (sim, sou gago.) No Inicio recusei, pois achei a ideia vazia e algo exploradora de uma característica tão pessoal, apesar de ser perceptível aos olhos dos outros. Mais tarde comecei a achar a ideia desafiadora e ideal para testar o meu controle a falar e subverter (contrariar)  o plano do Meu Objecto de Desejo de me usar como uma cobaia de um experimento pseudo-artístico.

Ao chegar à casa dele, já algo inquieto, como se suspeitasse de alguma conspiração contra mim, deparei-me com a namorada do Meu Objecto de Desejo completamente alucinada(e a inquietude era cada vez maior), deu-me um inesperado beijo na boca e pediu-me para, ficar em tronco nu, eu melindrado, mas preparado para o jogo do rato e do gato (aparentemente eu era o rato) tirei a camisola. Imediatamente, ela pôs-me um cachecol à volta do pescoço e pediu para sentar – me num banco ao centro da sala de estar como uma replica raquítica da escultura O Pensador de Auguste Rodin. O cenário já de si deprimente piorou ainda mais quando O Meu Objecto de Desejo pediu-me para declamar um poema qualquer em francês. Estava completamente à mercê de dois sensacionalistas, com estranhas pretensões artísticas, no entanto eu tinha o poder da minha voz… Não gaguejei em qualquer momento, as palavras ecoavam lentas e seguras. O pretendido pelo Meu Objecto de Desejo foi completamente destruído e o seu intento de cineasta experimental também. E tal como Buñuel e Dali, os nossos egos chocaram violentamente e cada um seguiu o seu caminho. Eu segui vitorioso pelas estreitas e calorosas ruas do Bairro Alto, orgulhoso de mim mesmo, pois tinha conseguido impor a minha voz em todos os sentidos! Agora, sim estava preparado para me divertir e beber uns copos com os amigos. – Paulo L.

​​***

[In a frosty winter´s night, I walked hurriedly to Bairro Alto (my favorite nightlife place and a very traditional neighborhood in Lisbon). No, I didn´t go necessarily to have fun there, but I went to meet a friend – My object of Desire – a colleague from graduation, a little bit older than me. He was my first crush for a man. At the time, I´ve tried to be a kind of platonic bisexual that only involved with girls (It´s confuse and contradictory, I know). Actually, my object of Desire was the synthesis of everything I really wanted to be or, honestly, the synthesis that everything I was, but at that moment I didn´t know… independent, irreverent, idealist and very seductive (but in fact he was an excellent manipulator). And to highlight even more my obsession, he was living in Bairro Alto! For a suburban nineteen years old boy, having a friend who was living in a super cool neighborhood was something to be proud (pure innocence or foolishness?)

A few days ago, he proposed me something unexpected that I immediately refused. The point was very simple, I would have to read something to a camcorder and the objective was, essentially, to capture me stuttering (yes, I´m stutterer). How I said, I refused in the beginning, because I considered an empty idea and somewhat exploited about a so personal feature, although it is a characteristic completely visible to everyone. Later, I started to think about this challenging idea and the ideal thing to test my controlling to speak and also to counteract My Object of Desire´s plans, using me as a guinea pig for a pseudo – artistic experiment.

Arriving at his house, and feeling something strange, like a conspiracy against me, for my surprise I came across My Object of Desire´s girlfriend, completely hallucinated, when, suddenly, she kissed me on the lips and asked me to take my shirt off. Although I was embarrassed, I was prepared for that cat and rat game (and apparently I was the rat), then I took my shirt off. Immediately she put me a scarf around my neck and asked me to sit in the center of the living room posing like a rickety replica of the Auguste Rodim`s sculpture – TheThinker. The scenario was depressing enough, but got worse when My Object of Desire asked me to recite a poem in French. I was in front of two sensationalists in a weirdo artistic claim; however I had the power of my voice… I recited and didn´t stutter at any time. The words sounded safe and slowly. The intentions of My Object of Desire were completely destroyed and his experimental filmmaker intent also. And as Buñuel and Dalí, our egos clashed violently and each one followed their own way. I followed feeling victorious by the narrows and friendly streets of Bairro Alto, very proud about myself, especially because I imposed my voice in every single way! Then, I was prepared to have fun and have a few drinks with friends.] – English version by Paulo L.

See the other Lisbon boys and read their stories in Elska Magazine issue (04) Lisbon

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